segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre a Mania de "Bater" em Pentecostal


Respeito o trabalho de pastores como Renato Vargens (Igreja Cristã da Aliança) e Paulo Junior (Igreja Aliança do Calvário), que fazem uma apologia muito séria e coerente do evangelho bíblico em face de práticas e ensinamentos enganosos. 

Mas tem surgido uma turma de "teoblogueiros", gente que leu um livro de John Piper e assistiu a dois vídeos do Paul Washer e que, por isso, pensa ser a última bolacha do pacote e a mais alta expressão da teologia brasileira, além de arrogar a si o direito de "bater" em pentecostal por esporte e diversão. É uma turma que faz críticas ao pentecostalismo de modo frio, jocoso, reducionista e desproposital. 

Acredito que o que lhes falta é:

1. Saber que o movimento pentecostal é dinâmico e plural. O termo usado pelos cientistas da religião, inclusive, é "pentecostalismos brasileiros", de tão múltiplas que são as expressões do pentecostalismo no Brasil. Sendo assim, não se pode colocar as igrejas pentecostais no mesmo saco. Há igreja pentecostal que tem hinos orquestrados na liturgia, com direito a piano. Já em uma outra o povo canta ao som do pandeiro. Tem aquela onde o pregador grita o tempo todo e pede dinheiro ao final do sermão. E tem a outra, cujos pregadores são agradáveis, eloquentes e profundos expositores das Escrituras. Tudo vai depender do contexto social e cultural de onde determinada igreja está inserida, além da orientação teológica e da ética de cada líder.

2. Saber que muitas igrejas pentecostais prestam um serviço relevante à sociedade através de projetos notáveis. Se soubessem isso, não diriam por aí que "igreja pentecostal só serve para arrancar dinheiro dos trouxas e incomodar a vizinhança com barulho insuportável".

3. Saber que há muita gente que encontra em igrejas pentecostais a base de sustentação e sentido existencial. Gente sofrida e maltratada que em cultos pentecostais sentiu conforto, alívio e esperança. Gente que, por vários fatores, as igrejas históricas não conseguem alcançar. Se soubessem isso pensariam duas vezes antes de dizer que "pentecostal só está atrás de entretenimento religioso e espetáculos miraculosos". 

4. Saber que há muitos líderes sérios em igrejas pentecostais, que estudam a Palavra de Deus exaustivamente, que pregam com responsabilidade o conteúdo do Evangelho, que não ganham dinheiro vendendo falsas esperanças e soluções imediatas aso fiéis. Se soubessem isso não diriam que "os pastores pentecostais só pensam em dinheiro".

5. Saber que muitos pentecostais estão ocupando as carteiras de salas de aula em seminários e faculdades teológicas, consumindo bons livros, inclusive de autores reformados. Há pentecostal analfabeto e há pentecostal com mestrado e doutorado. Se soubessem isso, evitariam frases reducionistas e generalizantes, como "o pentecostal é ignorante teológica e culturalmente".


É inegável que o evangelicalismo brasileiro precisa de pastores e pensadores cristãos que ensinem o Evangelho correta e integralmente e alertem as pessoas acerca dos falsos mestres. Mas esse ministério docente, crítico e apologético deve feito de modo ético, amoroso, pacífico e bem fundamentado, sem arrogância teológica, sem generalizações, sem piadinhas com a fé alheia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um recado de Richard Baxter ao jovens pregadores reformados


Recentemente ouvi uma pregação de um jovem pastor reformado. Era tanta inteligência, eloquência, capacidade de análise e erudição teológica reunida em uma só pessoa que fiquei admirado. Contudo, o sermão terminou como um aborto ou um voo sem aterrissagem. Não porque o pregador não tenha feito uma conclusão como manda as regras da Homilética. No entanto, porque o sermão era teologicamente complexo.

Esse episódio me levou a escrever essa breve nota. Jovens pregadores reformados, cuidado com a verborragia teológica nos púlpitos. Não desperdicem a maravilhosa oportunidade de pregar a Palavra de Deus às pessoas, com vazias exibições de conceitos teóricos e abstratos do último teólogo que vocês leram. Dirijo-me especialmente aos reformados porque entre eles é mais frequente encontrarmos esse tipo de comportamento.

Isso não quer dizer que uma pregação bíblica não deva seguir parâmetros de uma boa exegese, acrescida de leituras enriquecedoras. Significa, sim, que o sermão deve necessariamente ser, além de eloquente, simples, claro e atingir o coração dos que o ouvem.

Como disse Richard Baxter, no seu clássico livro "The Reformed Pastor" (O pastor reformado): " Nosso ensino deveria ser o mais claro e simples possível. As pessoas não podem beneficiar-se de nosso ministério a menos que o possam entender. Se obscurecemos a verdade, então somos inimigos dela".


Tão grave quanto distorcer o Evangelho, como fazem alguns pregadores neopentecostais, é complexificar o Evangelho, como fazem alguns pregadores reformados. No primeiro caso, os ouvintes recebem uma comida estragada, contaminada. No segundo caso, eles recebem uma comida em uma embalagem tão complicada, que não conseguem abri-la para comer. No primeiro caso, o rebanho morre por envenenamento e intoxicação. No segundo, por inanição. Sendo assim, ambos os pregadores deixam de cumprir o propósito da pregação: comunicar a Palavra de Deus, de modo hermeneuticamente correto em linguagem clara e acessível às mentes e aos corações dos ouvintes contemporâneos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Como Venci Minha Crise Vocacional e Não Abandonei o Ministério Pastoral


Desde menino almejei o ministério pastoral. Comecei a estudar a Bíblia e a pregar o Evangelho muito novo. Fui para o Seminário Teológico assim que concluí o Ensino Médio.Li bastante, me dediquei muito, orei muito. Ao sair do Seminário, nunca deixei de estudar e me aperfeiçoar para realizar a minha vocação.
No entanto, durante vários anos, enfrentei uma séria crise vocacional que quase me jogou definitivamente para fora do ministério da Palavra de Deus.
O que aconteceu comigo? Em primeiro lugar, eu me decepcionei ao ver tanta idiotice sendo feita em nome de Deus dentro do evangelicalismo brasileiro, especialmente no contexto do pentecostalismo. Em segundo lugar, me frustrei ao ver tanta gente ruim,despreparada, mal intencionada e desqualificada receber o título de pastor. Indignei-me a ver tantos pastores fazendo palhaçada, envolvidos em escândalos, engordando a conta bancária, etc. Terceiro, me assustei com o comportamento competitivo, ciumento, narcisista, "umbilicocêntrico" da parte de líderes evangélicos, especialmente dentro do círculo denominacional do qual fazia parte. Os ideais de menino foram duramente espancados pela dura realidade.
Cheguei a pensar em me dedicar exclusivamente a outros trabalhos e rejeitar para sempre a ordenação pastoral. Principalmente, porque muita gente mal informada e preconceituosa, que não possui noção alguma do panorama religioso brasileiro, tem a tendência de colocar todos os evangélicos e todos os pastores no mesmo saco.
Mas veio o amadurecimento (que processo difícil) e ponderei algumas coisas bem no fundo do coração. Venci a crise fazendo a mim mesmo algumas perguntas:
1. O ministério pastoral é uma vocação divina, bela e necessária para os nossos dias? Concordei que sim. É realidade inegável que o Brasil é um país religioso, com presença evangélica expressiva. E quanto mais líderes sérios, vocacionados e preparados houver, menos espaço terão os falsos mestres e mercenários. "A seara é muito grande, mas são poucos os trabalhadores" (palavras de Jesus).
2. Um médico deve ter vergonha de ser médico só porque há médicos que são uma vergonha para a profissão? Concordei que não. (A mesma pergunta vale para advogados, engenheiros, professores, etc).
3. Alguém que possui consciência da dignidade e honra de sua vocação deve temer o preconceito dos ignorantes? Concordei que não.
4. Eu sei o tipo de pastor que quero ser e o tipo de pastor que não quero ser? Concordei que sim.
5. Em todo tipo de ocupação humana há distinção entre pessoas e pessoas, por exemplo: no jornalismo, há jornalistas e jornalistas; no magistério, há professores e professores? Ou seja, sempre haverá os que são éticos e os que não são éticos; os que são profissionais e os que não são profissionais, etc? Concordei que sim.
Vocês já ouviram aquele adágio popular "os inconformados que se mudem". Pois bem, a conclusão que me salvou da crise vocacional foi: "Os inadequados que se mudem". Ou seja, não são os pastores realmente vocacionados, extensivamente bem preparados e radicalmente comprometidos com o Evangelho que devem abandonar o ministério pastoral. Antes, são os pastores inadequados, isto é, os que não se encaixam nos mui dignos padrões bíblicos do pastorado, que devem cair fora e arrumar outra coisa para fazer na vida.
"Os inadequados que se mudem!". Foi assim, então, que eu fiquei.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sobre a Relevância do Ministério Pastoral



O crescente processo de banalização do ministério pastoral, por conta dessas igrejas que "produzem" pastores do mesmo jeito que se produz coca-cola, sem falar nos famosos maus exemplos, tem levado os pastores sérios a uma preocupação muito grande com sua relevância social. Alguns, em nome da relevância, buscam abrigo na vida acadêmica, sendo pastores inteligentes, com mestrado e doutorado. Outros, também em busca de aumentar a dignidade e prestígio público de seu ofício preferem se engajar em projetos sociais, abraçando o ativismo político e social.
Nada contra, desde que as qualidades fundamentais do ministério pastoral não se percam. O pastorado é, antes de tudo, uma vocação divina (Efésios 4.1). E a missão primordial do pastor é se dedicar à oração e ao ministério da Palavra (Atos 6.4).
Respeito aqueles que pensam que um pastor hoje precise ter uma outra profissão, a fim de não ser enquadrado no grupo dos oportunistas. Mas penso que não é isso que dará (ou devolverá) a dignidade do ministério pastoral no Brasil hoje, inclusive entre a população mais jovem e altamente escolarizada.
Creio que a relevância do ministério pastoral está justamente na sua dimensão espiritual, no seu fator divino, como muito bem expressa Eugene Petterson no seu precioso livro "A Vocação Espiritual do Pastor". O chamado pastoral é muito específico e não deve ser confundido com o papel de um administrador, de um assistente social, de um psicólogo ou de um Coach.
Portanto, pastores, busquem a relevância de seus ministérios naquilo que é próprio da vocação pastoral: expor fielmente toda a Escritura, orar em favor dos homens e viver de modo digno.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Breve nota sobre a idolatria evangélica

Sinto profunda tristeza pelos evangélicos que condenam católicos por "idolatria", quando eles mesmos idolatram seus pastores. Em muitos casos, vemos a saudável relação pastor-ovelha se tornar em uma doentia relação senhor-súdito. Já viu o evangélico que acusa a Xuxa de ter vendido a alma para o diabo quando ele mesmo vendeu a alma, a inteligência, a consciência do Evangelho para o pastor/ídolo intocável? A idolatria mais absurda é quando alguém que é chamado para ser servo de Deus (pastor, apóstolo, arcanjo, ancião, guru, etc...) ocupa o lugar do próprio Deus no coração dos fiéis.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Um "coto" pro papai



                                                                                                                                                                               Minha pequena filha, com um ano e nove meses de vida, brincava com outras crianças quando eu cheguei. Ao me ver, foi correndo ao pote de biscoitos que estava sobre uma mesa à sua altura, pegou um biscoito com sua mãozinha direita e foi correndo para o meu colo. Recebi o abraço mais carinhoso do mundo, seguido de um presente tão gracioso e espontâneo: "Um 'coto' pro papai!".
             Comi o biscoito como se fosse um sacramento, um elemento sagrado. Quando sou surpreendido pela bondade e pela beleza, percebo o mistério divino que permeia o nosso mundo. Momentos como esse são sinais visíveis do Deus invisível. Sei que enquanto viver sentirei saudade desse episódio encantador. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Saudade do que vejo

É possível sentir saudade do que se vê? Sentir falta do que está tão perto? Saudade do presente? Parece coerente usar a palavra saudade para falar do passado. Mas sinto diferente. Existe sim uma saudade do presente, uma saudade do que vejo.

Você quer uma explicação? Ainda que me esforce muito, não serei tão claro. Nesse caso, você teria toda a razão para abandonar esse texto, cujo autor não se faz entender, violando as regras de uma boa comunicação.

Mas há realidades que não são compreendidas através de palavras, mas pela imediata identificação interior. Se você também sente saudade do que vê, saberá exatamente o que tento dizer.
Não se pode confundir essa saudade com a insatisfação. O insatisfeito deseja ter um dia o que não tem; o saudoso deseja ter sempre o que está tendo agora. A insatisfação é um querer ter. A saudade é um querer não perder.

Quem tem saudade do que vê tem alma fotográfica: registra aquele instante preciosamente fugaz, com a vontade de eternizá-lo. Quem tem saudade do que vê, já sente falta do sorriso da pessoa amada no momento mesmo em que o sorriso lhe está sendo ofertado. É  sentir falta do abraço enquanto ainda estão abraçados. É sentir uma estranha e gostosa falta do que ainda está acontecendo. É a antecipação de uma saudade futura. É ter a sofrida sensação de se estar no amanhã com saudade do hoje.

Ter saudade do que vê é querer que um gozo vivido agora não se acabe nunca.  É querer que uma mesma cena, cuja execução mal terminou, se repita todos os dias do mesmo jeito, preservados os mesmos cenários, os mesmos atores, as mesmas músicas, as mesmas falas, o mesmo roteiro.  

É um querer, querendo: que o sorriso pueril continue sorrindo, que o canto alegre siga cantando, que o amor doce prossiga amando. E é assim que sigo: sentindo saudade das boas coisas que vejo e vendo a saudade das boas coisas que sinto.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Terrorismo Espiritual


Nos nossos dias, ações terroristas de grupos radicais islâmicos estão espalhando o medo pelo mundo todo, ainda mais com esse poderoso instrumento de informação que é a internet. Acesso o facebook e está lá, um vídeo compartilhado mostrando fortes imagens de cristãos sendo barbaramente mortos por extremistas muçulmanos. Não sei como tem gente de mau caráter que ainda tem coragem de defender esses grupos, dizendo que são pobres vítimas da opressão de poderes hegemônicos ocidentais (incluindo a cristandade).

Mas, existe um outro tipo de terrorismo que, por sua aparência externa de piedade, ainda consegue ser mais nojento. Falo do terrorismo espiritual, praticado por cristãos evangélicos desequilibrados (como é o caso de alguns membros de círculos pentecostais) contra seus próprios “irmãos” na fé.

O terrorismo espiritual, cujos principais agentes são os chamados profetas e profetizas, é caracterizado por formas de discurso que geram medo, aflição e desespero, em nome de Deus. É um mecanismo de poder e controle, empregado por alguns estranhos personagens carismáticos, que é legitimado por uma suposta autoridade que vem do Céu. Com base em ameaças e chantagem espiritual, eles conseguem a submissão cega e muda de seus seguidores, sem enfrentar resistência alguma.

O terrorismo espiritual se expressa em frases, como: “Se você não fizer isso ou aquilo, Deus vai pesar a mão sobre você!”; “Não toque no ungido do Senhor!”; “Os rebeldes [entenda-se aqueles que não concordam com os ensinos e as práticas do arrogante profeta], Deus vai matar”. Eu mesmo já ouvi sentenças de morte sendo desferidas contra pessoas, em nome de Deus.

Amanda, jovem universitária, contou-me que só se “converteu” em um culto pentecostal porque certa “profetiza” lhe disse que, caso ela não aceitasse Jesus naquele exato momento, o diabo a mataria. Quanta bestialidade! Sendo que as Escrituras, livro onde os evangélicos coerentes, embasam sua fé, deixa claro que a conversão e o arrependimento são graças divinas, aplicadas eficazmente pelo Espírito Santo na interioridade do indivíduo. A fé, dom de Deus, é despertada pela simples pregação do Evangelho e não pelo sermão violentador da consciência e aterrorizador do espírito.

Caio, é um profissional liberal, muito inteligente e questionador. Há dois anos, por alcançar uma nova e mais compreensão do Evangelho, decidiu sair da sociedade religiosa pentecostal da qual era membro para se vincular a um grupo protestante histórico.  Após essa mudança, ocorreu-lhe uma situação muito triste na vida pessoal. Para aumentar ainda mais a ferida, assim como os amigos de Jó, apareceu em cena mais uma dessas profetizas, uma terrorista espiritual, com a seguinte mensagem ao pobre homem: “Isso lhe sobreveio porque você é um rebelde, abandonou a sua igreja e perdeu a benção espiritual do seu pastor. Enquanto você não fizer o caminho de volta, essa maldição não lhe será tirada”.

Isso é uma afronta à liberdade de expressão e crença de uma pessoa. Trata-se de um discurso intimidatório, criminoso, cerceador da livre consciência de fé. Aquele que pratica tal coisa não deveria ficar impune perante a lei. Toda pessoa que confia de todo o coração em Cristo, está nas garras da graça e ninguém pode arrancá-la de lá, sendo Cristo mesmo o único mediador dessa graça de Deus. Isso significa que o favor de Deus não está condicionado à intercessão, mediação ou cobertura espiritual de nenhum sacerdote humano ou líder religioso algum. Quem pode condenar aos que Deus justificou? Quem pode amaldiçoar aos que Deus abençoou? 

Já que o nosso texto está um pouco sombrio hoje, vou contar um último caso, tendo como cenário um funeral. João perdeu a sua esposa. Um profeta do medo, após a cerimônia fúnebre, procurou o viúvo e, ao invés de consolo, entregou-lhe uma perversa explicação espiritualizada da causa mortis: “Ela morreu para que você se acertasse com Deus”. Terrorismo, paganismo, covardia!  Até hoje, João lida com o desespero causado pela culpa de ter sido o possível causador da morte da mulher amada. Tenho orado com ele, buscando o conforto do Pai de Amor e Misericórdia. 

O Deus que conheço não requer sacrifícios humanos para cobrir os pecados de ninguém. Cristo, Ele é o único sacrifício, feito de uma vez por todas, aceito para a redenção daqueles que, graciosamente, desde a eternidade Deus designou para a salvação. Deus não mata ninguém para salvar ninguém. Quem mata é o diabo e seus agentes, dentre os quais, os terroristas espirituais. Esses, semeiam morte e não vida, espalham trevas e não luz, pregam um deus caprichoso e vingativo ao invés do Deus rico em graça e benignidade, são portadores do desespero e não da esperança, são servos da escuridão e não da luz.

Nessa história toda, fica agora o velho, porém extremamente atual, convite dos reformadores da Igreja do século XVI a cada evangélico desse país: volte-se para as Escrituras, reconhecendo nelas a única profecia revelada e autorizada por Deus, como fonte de autoridade espiritual e moral, de fé e de obras, de pensamento e de ação. Não merecem atenção tanto os profetas da prosperidade, que vendem um deus Papai Noel, manipulado e risível, quanto os profetas do medo, que criam um deus tirano e ameaçador.


Termino com o artigo 1º do Capítulo 21 da Confissão de Fé de Londres de 1689, que é um antídoto contra o veneno dos terroristas espirituais: “A Liberdade que Cristo comprou para os crentes, no evangelho (...) consiste no livre acesso a Deus, no prestar-lhe uma obediência não suscitada por medo escravizador; e, sim, por amor, como o de uma criança, voluntariamente”. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

4 erros que um reformado não deve cometer


Um jovem procurou-me, dizendo que redescobriu o Evangelho de Jesus Cristo, através da herança teológica e doutrinária da Reforma Protestante do século XVI. Ele está bem empolgado, lendo avidamente escritos dos grandes ícones desse movimento, como Martinho Lutero e João Calvino.

Há mais de dez anos venho estudando a Reforma, sob o ponto de vista histórico, teológico e doutrinário, e também lidando, como pastor e professor, com as questões que vão sendo levantadas quando nos propomos a transportar as ideias dos reformadores para os desafios das igrejas evangélicas brasileiras na atualidade.

Com base nesse histórico pessoal, atrevi-me a desempenhar o papel de conselheiro e apontei-lhe os quatro erros que um reformado não deve cometer.

Primeiro: um reformado não deve ser teologicamente orgulhoso. Todo cristão que se diz reformado deve ler repetidas vezes I Coríntios 13. Nenhum conhecimento, habilidade alguma, obra nenhuma, nada disso é válido sem o amor. O amor é a legitimação ética e espiritual de todas as nossas palavras e obras. Usar-se do título de “reformado” para depreciar e humilhar a crença de alguém é contrário ao espírito da Reforma. Dizer que A é alguém ignorante, alienado, mentalmente limitado porque não chegou as mesmas compreensões teológicas e doutrinárias de B, é banalidade pura, vaidade, pecado. Lutero, em seu livro “Da liberdade cristã”, descreve a maneira como o cristão deve se relacionar com Deus e com o próximo: pela fé em Deus o cristão é livre; pelo amor ao próximo é servo de todos. João Calvino, sabiamente, escreveu: 

“Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não se presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina Graça”. João Calvino, Exposição de 1 Corintios (1 Co 4.7), pp. 134,135

Segundo: um reformado não deve ser chato. Tem gente que descobre a Fé Reformada e passa a ser um catequista importuno. Qualquer momento ou qualquer lugar torna-se uma ocasião para suas longas exposições teológicas e debates doutrinários intermináveis. É legal citar os livros que lemos, os vídeos que assistimos, as conferências das quais participamos. Mas fazer disso um ritual massacrante, um “disco arranhado”, uma doutrinação forçosa das pessoas, deve incomodar até mesmo os reformadores em seus túmulos. Mais uma vez, recorri às orientações do próprio Calvino, a fim de ancorar este segundo conselho ao jovem reformado: "“Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida” (As Institutas – edição Especial, Vol IV, pg 181, Ed CEP). Não será melhor, portanto, deixar que a fé reformada se expresse naturalmente pelas obras que glorificam a Deus do que pelos falatórios vãos? 

Terceiro: um reformado não deve ser beligerante. Os reformadores não almejavam aproximar os cristãos de seu tempo das Escrituras e, consequentemente, do Evangelho autêntico de Jesus Cristo. Contradiz, portanto, os princípios da Reforma qualquer postura agressiva, raivosa, hostil, que afaste as pessoas de Cristo, que as leve a odiar qualquer referência à palavra “igreja”. É importante a crítica sensata aos absurdos que se prega e que se faz em muitos círculos ditos “evangélicos” nos nossos dias. É importante expressar o sólido conteúdo bíblico e teológico da Reforma, com coerência e clareza. Contudo, um reformado deve se abrir ao diálogo, ouvir os diferentes pensamentos e não “partir pra cima”, nocauteando o oponente. Já vi “reformados” vencendo debates, mas perdendo bons amigos. Lutero sustentava que a Reforma deveria ser obra da Palavra e não da imposição violenta. A descoberta do Evangelho que revolucionou a vida de Lutero veio do simples estudo pessoal das Escrituras, quando o reformador deparou-se com essas palavras: “O justo viverá por fé” (Rm. 1.17).

Quarto: um reformado não deve ser omisso. No tópico acima, condenei o espírito beligerante. No entanto, ser pacífico e tolerante com a pluralidade de ideias não significa ser covarde. “Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio. Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor...” (conselhos de São Paulo ao jovem Timóteo em I Timóteo 1.7-8). A covardia, aqui, se traduz em omissão vergonhosa - derivada da fraqueza de personalidade, de uma fé insipiente ou de um desvio de caráter – que leva alguém a se conformar quando deveria reagir, a se calar quando deveria falar. Na “sociedade líquida” na qual vivemos ficou fora de moda ter convicções, pois soa como fundamentalismo, extremismo, intolerância. Então, para ser simpático e agradar a gregos e a troianos, há aquele que perde as oportunidades de dar testemunho do Evangelho puro e simples.  Em abril de 1521, após ter sido excomungado pela Igreja, Lutero foi convocado à cidade de Worms, onde, diante de uma assembleia de nobres e príncipes que governavam como o Imperador, deveria retratar-se de seus ensinamentos. Diante daquela assembleia, o reformador respondeu: “Não posso nem quero me retratar de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é justo nem seguro. Deus me ajude. Amém”.

Esses conselhos, embora bastante incompletos, podem ser discutidos, ampliados e repensados, a fim de servir à maturidade espiritual e teológica dos que estão saindo da caverna de suas limitadas compreensões sobre a fé cristã, - compreensões estas, muitas vezes controladas por rígidos sistemas denominacionais fechados e cerceadores do pensamento -,  e encontrando um mundo lá fora, amplíssimo e iluminado pela sabedoria que vem sendo acumulada por gerações de cristãos frutos da Reforma. 
     


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os Pentecostais Estão Descobrindo o Calvinismo (Parte 2)

No primeiro texto (leia aqui), discuti brevemente sobre a recente onda calvinista que parece estar chegando com força nos territórios pentecostais, especialmente entre os grupos mais jovens.

Nada do que escrevi, o fiz de um ponto de vista científico. Não levantei dados, não realizei pesquisa de campo ou coisa parecida. Quem sabe esse poderia ser um bom trabalho para um cientista da religião.

Mas quando digo que os pentecostais estão descobrindo o calvinismo, estou me baseando na "intuição", nessa percepção livre da realidade, nesse olhar ao redor, no bate-papo informal com muitos jovens evangélicos, nos debates em plataformas virtuais, nos posts em redes sociais.

Muitos jovens com os quais convivo, de origens pentecostais, estão buscando alguma coisa a mais. Ou talvez melhor seria dizer que eles estão buscando o que sentem que se perdeu nas expressões diversas do pentecostalismo brasileiro?

Porque, antes de tudo, parece que esse caminho em direção à fé reformada tem sido um curso natural de um processo de reencontro com o cristianismo puro e simples, conforme ensinado pelos apóstolos de Jesus e redescoberto pelos reformadores cristãos. Não soa como algo forçado, mas como uma desejo efervescente de viver uma espiritualidade cristã mais próxima às Escrituras.

Assim como na época da Reforma Protestante do século XVI a invenção da imprensa pelo alemão Johannes Gutemberg foi um fator crucial para que o movimento se expandisse pela Europa, hoje, a internet tem sido um instrumento poderosíssimo na capilarização das ideias reformadas em nosso solo.

Além da facilidade de circulação de ideias que a Rede possibilita, estamos diante da fragilização doutrinária do pentecostalismo por aqui, da sua capacidade impressionante de metamorfose e criação de formas litúrgicas estranhas e novos estilos de liderança, do seu sincretismo folclórico cada dia mais inovador. Tudo isso prepara o terreno para que a turma mais questionadora se sinta desconfortável e procure por novos caminhos por onde trilhar a fé cristã; caminhos estes que conciliem uma fé vibrante com uma mente pensante, que não superestimem a experiência em detrimento da coerência com todo o ensino de Jesus e dos apóstolos.

Esse processo é saudável. Porque o que me parece que se deseja não é um ataque demolidor das religiosidades pentecostais. Pelo menos, até os limites daquilo que tenho visto e ouvido, quando um pentecostal se interessa pela fé protestante reformada, ele não está querendo dizer apenas que se opõem ao pentecostalismo. Pode sim ter um viés de insatisfação com a mediocridade teológica e espiritual que se percebe em alguns segmentos. Mas não somente isso. Há, sobretudo, a fome de radicalidade, no sentido de "radix", voltar à raiz, conhecer e experienciar a fé cristã com mais profundidade nas Escrituras e na rica tradição teológica e doutrinária da Reforma Protestante.

 Alguns debates importantes estão surgindo e se ampliarão. É interessante, agora, aguardar a resposta das imperiosas instituições pentecostais do país. Como reagirão a esse processo? Criarão uma espécie de Contra-Reforma, um combate aos hereges calvinistas, um Index Proibitorium? Ou aproveitarão o momento para repensarem algumas posturas e ideias?

Alguns andam dizendo que os grupos pentecostais já não têm nada mais a contribuir com evangelicismo brasileiro. Penso diferente. É um tempo privilegiado de amadurecimento. O tempo de crescimento quantitativo já acabou. Os pentecostais precisam é aprimorar suas estruturas internas, investir na formação de lideranças bíblica e teologicamente capacitadas, abandonar velhas roupagens descontextualizadas, adequar a linguagem e a pregação aos desafios do nosso tempo, limitar o espaço para a introdução das bizarrices espiritualistas, enfatizar uma espiritualidade bíblica.

Os jovens "pente-calvinistas" têm muito a contribuir com as igrejas pentecostais, caso aqueles tenham paciência e humildade, e caso estas não levantem muralhas rígidas e ameaçadoras, mas abram os portões do castelo para o debate e a reflexão.


Ditadores da Alma


Ditadores da alma
Que legislam sobre tudo
Impõem vossas leis
Sobre o coração de todos

Ninguém escapa
O jovem ou o maduro
Sofrem os vossos ditames
Vossos reféns são todos os homens

Submeteis a razão
Fazeis dela vossa escrava
Já destronastes príncipes e reis
Já derrotastes vigorosos combatentes
Já confundistes até os sábios e inteligentes

Invasores da alma
Derrubastes os muros tantas vezes
E invadistes o castelo
Abatendo, triunfante,
As torres de vigia
Numa guerra covarde

Uma cavalaria imponente
Pisoteando as almas vacilantes
Não te importas com o choro dos inocentes
Tampouco com a dor das mulheres

O que queres mais?
Já provastes que podes muito
Levas teu prisioneiro ao paraíso
Ou aos submundos infernais

Em teu nome gente comum já foi herói
E o homem bom ficou cruel
Embebeda a todos
Com teu mel
Com teu fel

Quantos fortes
Viram fantoches em vossas mãos?
Qual o preço da vossa servidão?
Será o amor, o rancor
O ódio ou o perdão?

Quem sois?
Hora anjos, hora demônios?
De onde vens?
Habitais hora no Éden, hora no Hades?
Frutificais alegrias e sofrimentos

Os homens vos chamam de SENTIMENTOS

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Uma menina à mesa do Senhor

Participava eu de uma celebração da Santa Ceia em uma igreja de tradição protestante reformada. Uma liturgia belíssima e uma preparação irreparável envolviam todos os presentes no mistério da morte redentora de Cristo pelos homens aos quais Deus chamou para a salvação.

Uma menina, com idade aparente de 2 anos, assistia tudo sentada ao lado de uma mulher jovem que, acredito, era a sua mãe. De repente, impulsionada pela curiosidade típica de uma criança, ela desceu do banco e correu à frente da igreja, onde estava a mesa com os elementos sagrados da Ceia. 

 Conseguindo agarrar as mãos na borda de um dos lados da mesa, esticou-se o máximo que pode, sustentando-se na pontinha dos dedos do pé, como uma bailarina, a fim de ver de perto o pão e o cálice. 

Ela ficou ali por alguns segundos, olhando vividamente, sem tocar em nada. Apenas olhava a forma bela como os elementos estavam arrumados sobre a mesa. Graças a Deus, nenhum diácono precipitado arrancou-a de lá. Seus pezinhos doeram e ela, então, voltou e sentou-se novamente ao lado da mãe. 

Foi um espetáculo belíssimo. Nenhuma Santa Ceia me tocou tanto. Foi a aproximação mais encantadora que eu já vi ao Sagrado. 

Chorei, como menino, lembrando-me do Cristo que acolhe todas as crianças, que as abriga em seu misericordioso coração, que recebe o perfeito louvor que sai de seus lábios: "Deixai os pequeninos, e não os impeçais de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos Céus." (Mateus 19.14).

Lamentei, lembrando-me das crianças que não têm lugar a mesas onde encontrem alimento, amor, comunhão, dignidade. Crianças apartadas de todo tipo de afeto, que não são bem-vindas em suas próprias casas, Crianças violentadas, inclusive, por motivos religiosos.

Consolei-me, na sensação da misericórdia que há no mundo, aparentemente tão pequena frente a tanta maldade, mas que é real. Há pessoas e projetos sérios em todos os cantos, comprometidos em acolher, educar, curar, alimentar crianças. São "braços" de Cristo protegendo e cuidando. São "ninhos" de Deus. Recordei-me da rica metáfora poética do escritor canônico:

Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, e para a sua prole, junto aos teus altares, ó Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meus." (Salmos 84.3).

Imaginei Jesus sorrindo, olhando para a menina e, tomando-a como representante, dizendo a todas as crianças, tanto as que riem quanto as que choram, tanto as de longe, quanto as de perto: "Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos pardais."(Mateus 10.31).


sábado, 28 de novembro de 2015

Eu sou a Universal!


Quem já não viu aqueles comerciais de televisão da IURD nos quais aparecem empresários bem-sucedidos, testemunhando como saíram do fracasso e passaram a experimentar sucesso total depois de conhecerem a denominação do Bispo? E terminam sempre com o mesmo slogan: “Eu sou a Universal”.
Eu gostaria muito que um dia a IURD selecionasse para atuar em uma peça publicitária um de seus membros que não conta a mesma história. A fala seria mais ou menos assim:

“Eu sou o Zé das Couves, trabalho de sol a sol para sustentar três filhos. Enfrento metrô lotado todos os dias, além de ter que suportar as azucrinações do meu patrão o dia inteiro. Minha esposa está doente. Daqui a cinco dias vence o meu aluguel. Eu não sou super-herói, conheço todas as limitações e sofrimentos que fazem de mim um ser humano comum em um país cheio de desigualdades. Eu sou a Universal!”.

Eu estava um dia em uma padaria de Itaperuna discutindo sobre esse marketing fabuloso da teologia da prosperidade, usado pelas igrejas neopentecostais. Então, um senhor, que aparentava ser de classe bastante humilde, se aproximou, interrompendo a conversa, e disse: “Eu concordo com tudo o que é feito pela Igreja Universal. Porque Deus não quer ninguém pobre. Quanto mais a gente dá o nosso dinheiro pra igreja, mais Deus dá benção pra gente. Abrão era rico e Moisés também”.
Naquele instante, lembrei-me de um pensamento de Pondé: “A Teologia da Libertação escolheu os pobres. Mas os pobres escolheram a Teologia da Prosperidade”[1].  




[1] PONDÉ, Luiz Felipe. Para entender o catolicismo hoje. São Paulo: Benvirá, 2011.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Exorcismo Forçado


 Não sou advogado do diabo, mas nesse texto pretendo “aliviar a barra” dele. Sei que ele é o “pai da mentira”, conforme afirmam as Escrituras. Contudo, também há muitas mentiras e acusações falsas sobre ele. Tem gente por aí atribuindo ao espírito mal obras que não são dele.

“Isso é do diabo!”, é um slogan recorrente na boca de muitos cristãos ignorantes que gostam de ver demônio onde não tem.

A coisa pode chegar ao nível do absurdo. Senão, vejam! Não muitos dias atrás, enquanto caminhava por uma calçada, vi um homem (suas roupas denunciavam que era membro de alguma “seita” pentecostal ultraconservadora)enfurecido com uma adolescente (que suponho ser sua filha). A moça, envergonhada, só ouvia o suposto pai gritar: “quando chegar em casa, arranque logo essas coisas do diabo [brincos] de suas orelhas”.

Bom, penso que o leitor agora deve estar me dando razão por articular essas ideias “favoráveis” ao adversário. Essa prática demoníaca de demonizar tudo é um problema sério. Há aquele crente que demoniza a depressão e tudo quanto é transtorno psíquico, por exemplo. O discurso é o seguinte: “Isso é obra do diabo. Não procure o psiquiatra porque não vai resolver. Vamos expulsar isso da sua vida!”. Um reducionismo ridículo da complexidade dos problemas humanos.

Ver demônios onde não há pode causar situações muito vexatórias e trágicas. Passo a contar ao leitor outra experiência minha, para que a reflexão se amplie. Dessa vez não vi, mas a própria vítima me contou. Vítima? Isso mesmo. Vou descrever o caso...

Trata-se de uma mulher jovem e bem instruída. Estava passando por uma terrível tempestade emocional, quando decidiu ir a uma igreja (dessas que fazem “campanhas da vitória”, “batalha espiritual”, “oração forte”) e pedir oração. Foi recebida por uma “pastora fogo puro”. Ao começar a orar, a pastora recebeu uma “revelação” de que a nossa jovem estava possuída pelo demônio da depressão, da miséria emocional, e outras coisas mais. A partir daí, teve início uma série de rituais, gritos de “sai demônio!”, mãos pressionando a cabeça da vítima, empurra-empurra para ver se “endemoninhada” caía por terra, enfim, aquela confusão toda.

A vítima ficou em estado de choque, sem reação, atordoada, apavorada com o rumo que as coisas tomaram de repente. Não esperava, absolutamente, aquilo. Queria ser acolhida, esperava orações afetuosas, palavras sábias que a acalmassem, súplicas suaves capazes de aliviar a dor.

Então, mesmo ali, acoitada pelo tumulto que criou-se a sua volta, ela reuniu forças, tomou coragem e gritou: “Parem com isso e me soltem agora”. Mas a fúria da ignorância religiosa é mais nefasta que o próprio demônio. Resultado? Consideraram a reação da jovem uma resistência do próprio demônio ao “poder de Deus”, e continuaram com a seção de exorcismo forçado.

Tragédia, ultraje, um verdadeiro “estupro” espiritual. A “vítima” passa bem, mas ainda está se recuperando do trauma sofrido. Indiquei a ela o livro “Feridos em nome de Deus”[1] da jornalista Marília de Camargo César, leitura pela qual poderá conhecer casos de outras pessoas “vitimadas” pela estupidez religiosa, e caminhar junto delas na busca por esperança e cura.

O diabo é o pai da mentira e dos mentirosos. Mas também é o pai da ignorância e dos ignorantes religiosos, da estupidez e dos estúpidos religiosos, da arrogância e dos arrogantes religiosos, da crueldade e dos cruéis religiosos, do fanatismo e dos fanáticos religiosos. É pai do abuso espiritual e de toda a raça de líderes evangélicos abusivos e manipuladores.

Há coisas feitas por alguns homens e mulheres “bem-intencionados” da religião, que o diabo, nem nos seus picos máximos de maldade, teria coragem de fazer.






[1] CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Em Nome de Jesus": nada mais que uma gíria do evangeliquês?


Lembro-me quando na boca dos evangélicos a expressão "em nome de Jesus" tinha um tom muito sério, reverente e espiritual. Cresci ouvindo pessoas piedosas orando, invocando o Nome para diversas situações, especialmente curas milagrosas e exorcismos. Tem gente que não acredita, mas eu acredito em sobrenaturalidade. Acredito também que o sagrado possui um significado insofismável na vida de muitos fiéis. Por isso não sou simpático ao pessoal (de jornalistas a humoristas) que gosta de caricaturar os símbolos religiosos das pessoas (seja Jesus ou Maomé).

Bem, os evangélicos cresceram muito, todo mundo sabe disso. Esse crescimento quantitativo não significou melhora da qualidade do evangelicismo brasileiro. Pelo contrário, muita coisa foi vulgarizada. Querem ver um exemplo: tem alguma área da vida da igreja que foi mais bagunçada e inferiorizada do que a pregação e o pastorado com essa explosão evangélica? Os reformadores do século XVI adoeceriam de depressão se vissem o que uma galera "ungida" e autorizada - sei lá por quem para serem pregadores e pastores - está fazendo com a Bíblia por aí.

Uma outra coisa que ficou bem relativizada e vulgarizada, nesse tempo de "deforma" protestante ou cristianismo deformado, é o termo "em nome de Jesus", que virou um clichê, uma repetição banal, com total esvaziamento de significado. Percebo que esse tempo de secularismo dominante, cada vez mais pessoas deixam de levar a religião a sério, inclusive os religiosos. Nesse cenário, continuarão a surgir as igrejas playground, com centenas de fiéis infantilizados e em busca de entretenimentos espirituais. E as igrejas sérias funcionarão como museus, sem muita atração para as massas, mas guardando relíquias antigas e preciosíssimas, como a Bíblia, as doutrinas fundamentais do cristianismo puro e simples,a pregação expositiva e fiel às Escrituras, os sacramentos, a ética cristã. 

Acho muito interessante quando alguém diz: "Em nome de Jesus vou parar de beber refrigerante e emagrecer!", ou "em nome de Jesus vou trocar de smartphone amanhã!", ou ainda, "em nome de Jesus vou namorar aquela moça". O que Jesus tem a ver com isso? Jesus deseja emagrecer, comprar um smartphone e arrumar uma namorada? 

Fazer alguma coisa em nome de outra pessoa significa agir ou falar como se ela o fizesse, trata-se de uma legítima autorização de representação, como acontece com a procuração que o cliente concede ao advogado, ou semelhante ao embaixador representando seu país em território estrangeiro. 

"Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço" (S. João 14.12).
"E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão". (S. Marcos 16.17-18).

Fazer algo em nome de Jesus é fazer as obras que Ele fez. E o que Ele fez? Resumindo em uma única palavra: amou! Quando lutamos contra o mal generalizado, presente em nós e no mundo. quando resistimos o diabo com todas as suas tentações, quando ultrapassamos as fronteiras do egoísmo para curar o outro dos males da alma e do corpo, para libertar o outro de todos os tipos de opressão, para proclamar a justiça e a esperança, estamos fazendo as obras de Jesus, portanto, agindo em seu nome.

Mas, lamento,o nome de Jesus virou apenas mais uma gíria do "evangeliquês", ou para fazer um recorte mais específico, do "neopentecostês". Como explica Harry Blamires, aluno de C.S. Lewis na Universidade de Oxford, em seu brilhante livro The Christian Mind: how should a christian think?, a perversão de linguagens e conceitos na literatura, nos filmes, nas telenovelas, nos discursos "inteligentes", nas publicações diárias e semanais, também atingiu a expressão religiosa. É impressionante ver como "em nome de Jesus" tem sido uma exclamação tão vulgarizada e esvaziada de sentido. E o problema é agravado pelos líderes religiosos de caráter duvidoso que usam o nome de Jesus para cá e para lá, mas Jesus mesmo está muito longe deles.

"Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” (advertências de Jesus em Mateus 7.22-23). 

Concluindo com um pensamento de Blamires: "Não há nada - nem mesmo sacerdócio, episcopado ou profissão religiosa - que não possa ser pervertido...".

terça-feira, 21 de julho de 2015

Provocações Teológicas (I) : Quem não ouve "música do mundo" que atire a primeira pedra - Sobre o caso Thalles Roberto



Na última semana “viralizou” na internet um vídeo no qual o cantor Thalles Roberto dizia em um evento religioso que não mais cantaria para os evangélicos. Não demorou muito para que “pipocasse” uma enxurrada de críticas.  Em primeiro lugar quero dizer que estou muito longe de ser um “fã” do cantor. Nunca comprei seus CD´s,  muito menos ouço suas canções; não gosto mesmo. Entretanto, confesso que fiquei de certo modo curioso para ver as reações dos evangélicos nas redes sociais após o anúncio do Thalles. Li, as mais variadas frases: “Esse cantor nunca me enganou”, “desviado” “vai agora cantar música do mundo”, “Thalles agora vai cantar música secular”. É como se o Thalles deixasse de ser um cantor “sagrado” e tornasse agora um cantor “profano”, “secular”, “do mundo”.

Entretanto acredito que TODAS as músicas que ouvimos, sejam elas evangélicas ou não são do mundo; isso mesmo. Todas as músicas são do mundo. Sabe aquela música “abençoada” daquele cantor gospel “abençoado” que você tanto ouve e gosta? Aquela mesma que durante o culto você canta de mãos levantadas e até se emociona e chora? Pois é, essa música abençoada é do mundo também. O compositor dessa música escreveu-a numa linguagem do mundo (português), os instrumentos musicais eram do mundo (guitarra, violão, contra-baixo, bateria, entre outros); a plataforma a partir do qual você ouve essa música é do mundo (CD, DVD, internet, etc). Você já reparou também que os cantores evangélicos mais tocados no Brasil são de gravadoras “do mundo”? (Sony, Som livre, etc). Por isso, quem nunca ouve “música do mundo” que atire a primeira pedra.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

As Declarações de Thalles Roberto e o Dever de Casa dos Evangélicos Brasileiros


Thalles Roberto, com seu redirecionamento vocacional para o mercado da música secular e suas declarações "nabucodonozorianas" ("vejam a grandeza da minha glória, tudo o que conquistei com a força do meu talento superior ao de todos os demais da música gospel), deixou muitos evangélicos com o coração dolorido. Diversos cantores já reconhecidos no mundo evangélico se posicionaram, uns com aquele discurso de "o que vem de baixo não me atinge", e outros com falas condescendentes e misericordiosas, do tipo "estamos prontos a lhe perdoar, quando você se converter de verdade".

Na verdade, essa mágoa e ressentimento de um expressivo número de evangélicos com o Thalles revela a imaturidade e a ingenuidade dessa gente. Eu estou aplaudindo o cantor rebelado até agora. Sabe por quê? Porque ele fez um grande favor ao movimento evangélico brasileiro. Mas, de fato, muitos fiéis não conseguiram ver a coisa por essa janela, o que confirma o pensamento que lê-se em O pequeno príncipe: "o essencial é invisível aos olhos".

O que o Thalles fez, e nisso ele prestou um grande serviço aos evangélicos que querem crescer, foi desmascarar ainda mais a ilusão que se chama "música gospel brasileira". Ao revelar os próprios pecados, ele colocou o dedo na ferida de todos os envolvidos no esquema. É por isso que, imediatamente, muitos cantores gospel fizeram questão de dizer "ai!" nas redes sociais e proteger o seu self-marketing com uma conversinha defensiva, como "ele é ganancioso, é isso, é aquilo, mas graças a Deus não sou como ele".

Thalles abriu novamente o espaço de discussão para que os evangélicos pensantes possam gritar mais uma vez e, quem sabe agora, serem ouvidos por alguns: "a música gospel no Brasil é business". Fiquem calmos, sei que há cantores evangélicos, cujas obras são expressões da arte cristã e da adoração a Deus, com sinceridade profunda e estética admirável. Mas estes, não são famosos, não vendem milhares de cópias, não ganham fortunas com cachês altíssimos; suas músicas são os acordes e os tons de uma consciência de vocação, de um chamado ao discipulado.

Muitas comunidades evangélicas agora estão se sentindo traídas, porque construíram toda a sua filosofia de dinâmica e crescimento de igreja sobre o ideal de culto modernizado com sua música gospel contemporânea. Se sentem traídas porque uma das estrelas em evidência, representante dessa categoria musical, demonstrou explícita e implicitamente, que o "ministério" desses "levitas" não passa de negócio, e a música que cantam, de produto de mercado.

A partir da década de 90 do século passado, por fatores diversos que não podemos discutir nesse texto, os evangélicos embarcaram em uma locomotiva de crescimento numérico que continua até hoje a todo o vapor. Segundo dados do IBGE, em 1991 somente 9,05% da população brasileira se identificava como evangélica. No censo publicado em 2000, 15,4% dos brasileiros declararam ser evangélicos. Uma década depois, conforme nos mostrou o censo 2010, o cenário religioso brasileiro sofreu uma redefinição incrível: o Brasil tem 22% de pessoas que seguem alguma denominação evangélica. É um crescimento explosivo de 61% em apenas 10 anos. Se as previsões do filósofo Luiz Filipe Pondé (PUC-SP) estiverem corretas, "o país, continuando na mesma batida, terá uns 50% de população evangélica em poucos anos"  (Folha de SP, 22/06/2015).

O que esses dados têm a ver com a música gospel? Trago ao meu leitor uma resposta dada por alguém que pesquisou o assunto, o doutor em Ciências Sociais Robson de Paula (UERJ). A longa citação justifica-se por sua importância na compreensão das ideias que exponho aqui.

"Tal crescimento, além de ressoar em diferentes esferas e segmentos sociais, também produz impacto na esfera do consumo. Com o objetivo de atingir esse segmento religioso, um conjunto de empresas de diferentes áreas especializou-se na produção de 'produtos evangélicos', criando, conseqüentemente, um nicho específico no mercado nacional. [...] No conjunto dessas empresas, destaca-se a indústria fonográfica evangélica. A partir dos anos de 1990, por iniciativa de alguns empresários ou denominações evangélicas, foram fundadas grandes gravadoras no país. Nessa década, a Line Records, a Gospel Records, a TopGospel e a MK Publicitá, juntamente com as rádios do segmento, passaram a imprimir um estilo industrial na produção, na divulgação e distribuição de álbuns em todo território nacional. Como contrapartida dessa atuação mais industrial das grandes gravadoras, ocorre a formação das celebridades. Até os anos de 1990, a maioria dos cantores evangélicos, salvo raras exceções, alcançava somente uma pequena e restrita audiência. Com a fundação das empresas fonográficas, alguns tornaram-se celebridades em decorrência da distribuição sistemática de seus álbuns e do acesso facilitado às mídias evangélicas". 

O que Robson de Paula está dizendo, em síntese?  O crescimento significativo dos evangélicos criou as condições ideais para a formação de um mercado dirigido para este segmento religioso, desencadeando o processo de industrialização e massificação da música tocada e produzida pelos evangélicos no Brasil. Tal processo se expressa na constituição das grandes gravadoras, no surgimento das celebridades, na variedade de locais nos quais a música é executada e na diversificação dos ritmos. Como evangélico tradicional não consome "música do mundo", os espertos perceberam o negócio fabuloso de vender "música de Deus" para essa massa consumidora em potencial.

As músicas que muitos evangélicos estão cantando em seus cultos, majoritariamente, não são adorações inspiradas, mas produtos comerciais que correspondem a uma lógica de mercado e a uma tendência do gosto do público consumidor. Por favor, não vá me dizer que você pensava que a Som Livre se converteu a Jesus? O slogan "Você adora e a Som Livre toca" é uma jogada de marketing estratégica, revestindo o consumo de produtos religiosos, bem como a inciativa da própria empresa, com uma roupagem espiritual e com um motivo devocional, cúltico. 

Termino, apenas indiciando, timidamente, o dever de casa dos evangélicos agora. Deverão sair dos cultos, ir para as suas casas e refletir o quanto aquilo que cantam individual ou coletivamente é nada mais do que produto de consumo massificado, artificial, sem integridade bíblica e profundidade espiritual, articulado com os interesses dos empresários e as tendências do mercado. Não estou sugerindo que o evangélico consciente deva destruir seus Cd's e DVD's dos famosos do mercado gospel. Minha sugestão singela é: ouça essa turma como se estivessem ouvindo qualquer outro cantor e músico secular. Isso mesmo, é tudo produto comercial; a diferença é que a música gospel usa o nome de Deus ou de Jesus ou do Espírito Santo, dando a impressão ilusória de que são mais santas, inspiradas, dádivas de louvor ao Criador. E, ainda quanto ao dever de casa, as denominações evangélicas brasileiras precisam passar por um tratamento de desintoxicação do produto químico chamado gospel. Os nossos cultos estão extremamente poluídos e contaminados. "Há morte na panela, oh povo de Deus!". Devemos repensar as músicas para a nossas liturgias, para a nossa devoção pessoal, para a nossa práxis evangelizadora.

Thalles, meu querido, que muitos outros famosos do gospel sigam seu exemplo, e usem o seus talentos para ganhar muito dinheiro e ficar ainda mais famosos; só que sem usar o nome de Deus e a paixão religiosa das pessoas.



Escrito por Jonathas Diniz em 21/07/2015 - Ipatinga/MG



Referência: DE PAULA, Robson. Os Cantores do Senhor: Três trajetórias em um processo de industrialização da música evangélica no Brasil. Revista Religião e Sociedade, nº 27, ano 2007, pp. 55 a 84. Disponível em: http://scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872007000200004&script=sci_arttext.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Não sou "Pentecosfóbico"

Um leitor enviou-me uma crítica, acusando-me de pentecosfóbico. Interessante. Trata-se de mais um verbete no dicionário de "fobias" dessa nossa democracia, onde pensar diferente faz de você "algumacoisafóbico". 

Pentecosfobia seria algum tipo de ódio contra pentecostais. Se eu odiasse os pentecostais, odiaria muita gente que jamais odiaria: meus pais participam desde a infância de um grupo pentecostal que agrega, hoje, a maior parte de fiéis desse segmento - as Assembleias de Deus; muitos parentes em linha reta ou colateral frequentam reuniões em igrejas pentecostais ou neopentecostais; conheci a minha esposa em uma igreja pentecostal (a maior contribuição do pentecostalismo feita a mim); minha irmã canta todos os domingos em um culto pentecostal; tenho amigos guardados no lado esquerdo do peito que são pentecostais. A lista pode ser muito maior, mas não é necessário.

Seu eu fosse pentecosfóbico teria que odiar milhões de brasileiros, pois - seja isso positivo ou não - a realidade é que  "o país, continuando na mesma batida, terá uns 50% de população evangélica em poucos anos", como escreveu Pondé em sua coluna na Folha no dia 22/06/2015. E sabemos que os grandes responsáveis por esse crescimento sem precedentes de evangélicos no Brasil são os movimentos pentecostais e neopentecostais. 

O ódio religioso não é uma patologia psicológica da qual sofro. Essa questão é séria. Mesmo no nosso mundo cientificamente evoluído e com tanto papo de tolerância e ecumenismo sabemos que muitas mortes ainda têm como causa conflitos de ordem religiosa. Pessoas continuam odiando e matando em nome de seu deus. Há católico que odeia evangélico e vice-versa. Há evangélico que não suporta candomblecista e vice-versa. Há muçulmano que quer expurgar o mundo da praga chamada "cristão" e vice-versa. E há o evangélico que detesta um evangélico de outra denominação que não a sua. Já vi um monte de piadinhas de humor negro feitas por tradicionais contra pentecostais e vice-versa. Tem calvinista que não consegue conversar com um arminiano e vice-versa. 

Não, meu problema não é com os pentecostais, em sua maioria gente simples e muito sincera em sua busca por um cristianismo mais piedoso, mais espiritualmente vivo. Meu problema é com os contornos que o pentecostalismo brasileiro vêm apresentando em nossos dias. Perdoem-me os pentecostais de coração, mas não posso deixar de dizer que o pentecostalismo clássico, equilibrado, coerente com as Escrituras e com a herança teológica da Reforma Protestante está em fase terminal. Até mesmo as Assembleias de Deus, guardiãs do pentecostalismo de raiz no Brasil, estão sendo devoradas pelo neopentecostalismo (com sua teologia da prosperidade, seus apetrechos ungidos, suas reuniões com muito apelo sentimental e antiintelectual, seu analfabetismo bíblico, seus pastores midiáticos e milionários, seus fiéis infantilizados e manipulados, seu clericalismo veterotestamentário, suas músicas sentimentalistas e ególatras, dentre outras tantas marcas). 

Não estou sendo categórico aqui, mas a constatação mais óbvia parece ser que o neopentecostalismo sofrerá novas mutações genéticas e sobreviverá como espécie cada vez mais forte no nicho religioso brasileiro. E mais: essa espécie permanecerá dominante sobre as demais, cravando seus tentáculos profundamente inclusive nas denominações protestantes históricas. Estas, se quiserem ser fiéis ao legado dos reformadores, terão que suportar sobreviver como grupos cada vez mais reduzidos, como ilhas isoladas no oceano, como espécies em extinção. Continuaremos experimentando um processo de neopentecostalização desenfreada no evangelicismo tupiniquim.

Não sou pentecosfóbico. A questão é que não sou simpático a um gênero de pentecostalismo que gera uma espécie de cristão esquizofrênico, biblicamente desnutrido, espiritualmente confuso e mentalmente alienado. E quanto às lideranças, como poderia eu respeitar e admirar esses milagreiros e "semi-deuses" (esse é o único título eclesiástico que falta no neopentecostalismo) que se aproveitam do poder espiritual que exercem sobre as pessoas para obterem poder político e econômico? Como não discordar desse misticismo sincrético absurdo, da confusão hermenêutica, da bagunça cúltica, da exploração comercial do sagrado, da manipulação da consciência?

Sinais de esperança no horizonte do pentecostalismo aparecem aqui e acolá, como é o caso da Assembleia de Deus de Herança Reformada em Maringá-PR, que conheci através do meu blog. É uma igreja nascente que busca a síntese entre um pentecostalismo clássico não neopentecostalizado e a tradição teológica da Reforma Protestante. 

Assim como não sou pentecosfóbico, também não sou tão pessimista assim. Há muitos pentecostais conscienciosos que estão percebendo que o trem do pentecostalismo em algumas igrejas já descarrilhou há muito tempo. Citando Nicodemus, acredito que "quem sabe os pentecostais não estejam predestinados a avançar bastante a teologia da Reforma no Brasil?".