segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sinto que você sempre existiu

Pensar que algum dia você não existiu me parece tão absurdo.
Sinto que você sempre existiu.

Volto aos momentos passados e imagino você presente em todos eles.
Parece tão natural. É como se a minha vida sempre existisse com a sua.

É como se todos as noites eu fizesse você dormir e todas as manhãs fosse acordado por suas risadas.

É como se sempre a conhecesse.
E quando digo que amo você é como se sempre isso lhe dissesse,
antes mesmo que você me conhecesse.

Sinto que sempre amei você.
Amei quando você ainda nem existia. Ou melhor, ainda não existia visivelmente no meu mundo concreto.
Sinto que você sempre existiu. Sinto que sempre nos conhecemos.
Porém, só fomos apresentados um ao outro no dia lindo do seu nascimento.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre a Mania de "Bater" em Pentecostal


Respeito o trabalho de pastores como Renato Vargens (Igreja Cristã da Aliança) e Paulo Junior (Igreja Aliança do Calvário), que fazem uma apologia muito séria e coerente do evangelho bíblico em face de práticas e ensinamentos enganosos. 

Mas tem surgido uma turma de "teoblogueiros", gente que leu um livro de John Piper e assistiu a dois vídeos do Paul Washer e que, por isso, pensa ser a última bolacha do pacote e a mais alta expressão da teologia brasileira, além de arrogar a si o direito de "bater" em pentecostal por esporte e diversão. É uma turma que faz críticas ao pentecostalismo de modo frio, jocoso, reducionista e desproposital. 

Acredito que o que lhes falta é:

1. Saber que o movimento pentecostal é dinâmico e plural. O termo usado pelos cientistas da religião, inclusive, é "pentecostalismos brasileiros", de tão múltiplas que são as expressões do pentecostalismo no Brasil. Sendo assim, não se pode colocar as igrejas pentecostais no mesmo saco. Há igreja pentecostal que tem hinos orquestrados na liturgia, com direito a piano. Já em uma outra o povo canta ao som do pandeiro. Tem aquela onde o pregador grita o tempo todo e pede dinheiro ao final do sermão. E tem a outra, cujos pregadores são agradáveis, eloquentes e profundos expositores das Escrituras. Tudo vai depender do contexto social e cultural de onde determinada igreja está inserida, além da orientação teológica e da ética de cada líder.

2. Saber que muitas igrejas pentecostais prestam um serviço relevante à sociedade através de projetos notáveis. Se soubessem isso, não diriam por aí que "igreja pentecostal só serve para arrancar dinheiro dos trouxas e incomodar a vizinhança com barulho insuportável".

3. Saber que há muita gente que encontra em igrejas pentecostais a base de sustentação e sentido existencial. Gente sofrida e maltratada que em cultos pentecostais sentiu conforto, alívio e esperança. Gente que, por vários fatores, as igrejas históricas não conseguem alcançar. Se soubessem isso pensariam duas vezes antes de dizer que "pentecostal só está atrás de entretenimento religioso e espetáculos miraculosos". 

4. Saber que há muitos líderes sérios em igrejas pentecostais, que estudam a Palavra de Deus exaustivamente, que pregam com responsabilidade o conteúdo do Evangelho, que não ganham dinheiro vendendo falsas esperanças e soluções imediatas aso fiéis. Se soubessem isso não diriam que "os pastores pentecostais só pensam em dinheiro".

5. Saber que muitos pentecostais estão ocupando as carteiras de salas de aula em seminários e faculdades teológicas, consumindo bons livros, inclusive de autores reformados. Há pentecostal analfabeto e há pentecostal com mestrado e doutorado. Se soubessem isso, evitariam frases reducionistas e generalizantes, como "o pentecostal é ignorante teológica e culturalmente".


É inegável que o evangelicalismo brasileiro precisa de pastores e pensadores cristãos que ensinem o Evangelho correta e integralmente e alertem as pessoas acerca dos falsos mestres. Mas esse ministério docente, crítico e apologético deve feito de modo ético, amoroso, pacífico e bem fundamentado, sem arrogância teológica, sem generalizações, sem piadinhas com a fé alheia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um recado de Richard Baxter ao jovens pregadores reformados


Recentemente ouvi uma pregação de um jovem pastor reformado. Era tanta inteligência, eloquência, capacidade de análise e erudição teológica reunida em uma só pessoa que fiquei admirado. Contudo, o sermão terminou como um aborto ou um voo sem aterrissagem. Não porque o pregador não tenha feito uma conclusão como manda as regras da Homilética. No entanto, porque o sermão era teologicamente complexo.

Esse episódio me levou a escrever essa breve nota. Jovens pregadores reformados, cuidado com a verborragia teológica nos púlpitos. Não desperdicem a maravilhosa oportunidade de pregar a Palavra de Deus às pessoas, com vazias exibições de conceitos teóricos e abstratos do último teólogo que vocês leram. Dirijo-me especialmente aos reformados porque entre eles é mais frequente encontrarmos esse tipo de comportamento.

Isso não quer dizer que uma pregação bíblica não deva seguir parâmetros de uma boa exegese, acrescida de leituras enriquecedoras. Significa, sim, que o sermão deve necessariamente ser, além de eloquente, simples, claro e atingir o coração dos que o ouvem.

Como disse Richard Baxter, no seu clássico livro "The Reformed Pastor" (O pastor reformado): " Nosso ensino deveria ser o mais claro e simples possível. As pessoas não podem beneficiar-se de nosso ministério a menos que o possam entender. Se obscurecemos a verdade, então somos inimigos dela".


Tão grave quanto distorcer o Evangelho, como fazem alguns pregadores neopentecostais, é complexificar o Evangelho, como fazem alguns pregadores reformados. No primeiro caso, os ouvintes recebem uma comida estragada, contaminada. No segundo caso, eles recebem uma comida em uma embalagem tão complicada, que não conseguem abri-la para comer. No primeiro caso, o rebanho morre por envenenamento e intoxicação. No segundo, por inanição. Sendo assim, ambos os pregadores deixam de cumprir o propósito da pregação: comunicar a Palavra de Deus, de modo hermeneuticamente correto em linguagem clara e acessível às mentes e aos corações dos ouvintes contemporâneos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Como Venci Minha Crise Vocacional e Não Abandonei o Ministério Pastoral


Desde menino almejei o ministério pastoral. Comecei a estudar a Bíblia e a pregar o Evangelho muito novo. Fui para o Seminário Teológico assim que concluí o Ensino Médio.Li bastante, me dediquei muito, orei muito. Ao sair do Seminário, nunca deixei de estudar e me aperfeiçoar para realizar a minha vocação.
No entanto, durante vários anos, enfrentei uma séria crise vocacional que quase me jogou definitivamente para fora do ministério da Palavra de Deus.
O que aconteceu comigo? Em primeiro lugar, eu me decepcionei ao ver tanta idiotice sendo feita em nome de Deus dentro do evangelicalismo brasileiro, especialmente no contexto do pentecostalismo. Em segundo lugar, me frustrei ao ver tanta gente ruim,despreparada, mal intencionada e desqualificada receber o título de pastor. Indignei-me a ver tantos pastores fazendo palhaçada, envolvidos em escândalos, engordando a conta bancária, etc. Terceiro, me assustei com o comportamento competitivo, ciumento, narcisista, "umbilicocêntrico" da parte de líderes evangélicos, especialmente dentro do círculo denominacional do qual fazia parte. Os ideais de menino foram duramente espancados pela dura realidade.
Cheguei a pensar em me dedicar exclusivamente a outros trabalhos e rejeitar para sempre a ordenação pastoral. Principalmente, porque muita gente mal informada e preconceituosa, que não possui noção alguma do panorama religioso brasileiro, tem a tendência de colocar todos os evangélicos e todos os pastores no mesmo saco.
Mas veio o amadurecimento (que processo difícil) e ponderei algumas coisas bem no fundo do coração. Venci a crise fazendo a mim mesmo algumas perguntas:
1. O ministério pastoral é uma vocação divina, bela e necessária para os nossos dias? Concordei que sim. É realidade inegável que o Brasil é um país religioso, com presença evangélica expressiva. E quanto mais líderes sérios, vocacionados e preparados houver, menos espaço terão os falsos mestres e mercenários. "A seara é muito grande, mas são poucos os trabalhadores" (palavras de Jesus).
2. Um médico deve ter vergonha de ser médico só porque há médicos que são uma vergonha para a profissão? Concordei que não. (A mesma pergunta vale para advogados, engenheiros, professores, etc).
3. Alguém que possui consciência da dignidade e honra de sua vocação deve temer o preconceito dos ignorantes? Concordei que não.
4. Eu sei o tipo de pastor que quero ser e o tipo de pastor que não quero ser? Concordei que sim.
5. Em todo tipo de ocupação humana há distinção entre pessoas e pessoas, por exemplo: no jornalismo, há jornalistas e jornalistas; no magistério, há professores e professores? Ou seja, sempre haverá os que são éticos e os que não são éticos; os que são profissionais e os que não são profissionais, etc? Concordei que sim.
Vocês já ouviram aquele adágio popular "os inconformados que se mudem". Pois bem, a conclusão que me salvou da crise vocacional foi: "Os inadequados que se mudem". Ou seja, não são os pastores realmente vocacionados, extensivamente bem preparados e radicalmente comprometidos com o Evangelho que devem abandonar o ministério pastoral. Antes, são os pastores inadequados, isto é, os que não se encaixam nos mui dignos padrões bíblicos do pastorado, que devem cair fora e arrumar outra coisa para fazer na vida.
"Os inadequados que se mudem!". Foi assim, então, que eu fiquei.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sobre a Relevância do Ministério Pastoral



O crescente processo de banalização do ministério pastoral, por conta dessas igrejas que "produzem" pastores do mesmo jeito que se produz coca-cola, sem falar nos famosos maus exemplos, tem levado os pastores sérios a uma preocupação muito grande com sua relevância social. Alguns, em nome da relevância, buscam abrigo na vida acadêmica, sendo pastores inteligentes, com mestrado e doutorado. Outros, também em busca de aumentar a dignidade e prestígio público de seu ofício preferem se engajar em projetos sociais, abraçando o ativismo político e social.
Nada contra, desde que as qualidades fundamentais do ministério pastoral não se percam. O pastorado é, antes de tudo, uma vocação divina (Efésios 4.1). E a missão primordial do pastor é se dedicar à oração e ao ministério da Palavra (Atos 6.4).
Respeito aqueles que pensam que um pastor hoje precise ter uma outra profissão, a fim de não ser enquadrado no grupo dos oportunistas. Mas penso que não é isso que dará (ou devolverá) a dignidade do ministério pastoral no Brasil hoje, inclusive entre a população mais jovem e altamente escolarizada.
Creio que a relevância do ministério pastoral está justamente na sua dimensão espiritual, no seu fator divino, como muito bem expressa Eugene Petterson no seu precioso livro "A Vocação Espiritual do Pastor". O chamado pastoral é muito específico e não deve ser confundido com o papel de um administrador, de um assistente social, de um psicólogo ou de um Coach.
Portanto, pastores, busquem a relevância de seus ministérios naquilo que é próprio da vocação pastoral: expor fielmente toda a Escritura, orar em favor dos homens e viver de modo digno.